SERÕES NA BIBLIOTECA

"CAMPINOS, TOIROS, LEZÍRIA NAS OBRAS DE ALVES REDOL E NATÉRCIA FREIRE"

Apresentação de Domingos Lobo


Biblioteca Municipal de Benavente
12 de Julho 2012  ::  21.30horas

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  1. “(...) Naquela noite a lezíria é um mar de silêncio, donde só emerge um fio de música, que o vento faz ondular em vagas. Sem saber os caminhos que pisa, um campino vai ao seu encontro, levado pelo passo lento duma égua pigarça, cansada como ele, de solidão.
    Tonto de amor e de juventude, o oiro das searas que atravessa queima-lhe a pele crestada; e um gabão tecido de noite e estrelas cobre-lhe os ombros.
    Há no ar um cheiro áspero que o excita e lhe faz apetecer as coisas mais simples da vida lezirenta. Gostaria de levar na garupa da sua égua a carmela que ontem lhe deu água do rancho da monda e sentir as suas mãos apertadas na cintura, em vez da faixa vermelha, e ir com ela depois, quando ambos o desejassem, adormecer num coxim de espigas e papoilas. Mas a serrazina do harmónio trá-la para si, com a saia curta pelo meio da coxa morena e aquele sorriso envergonhado e picante, que ele leva agarrado aos olhos. E por isso o campino tonto de amor vai ao encontro da música e da carmela que o espera. Só lhe disse «bom dia», mas tem a certeza de que a rapariga não bailou ainda, para olhar, inquieta, a porta do aposento por onde ele irá entrar.
    E já é tarde.
    Um toiro negro malacutão, o Príncipe, fugiu-lhe da manada, saltando os moirões da pastagem, e foi, carril abaixo, meter-se na tapada das vacas. Acossando-o na ponta do pampilho, num galope que esfarpou a lezíria de gritos selvagens, o campino fê-lo voltar à pastagem, onde os outros o receberam de cornos em riste. Ele sabe, que mais dia menos dia, o Príncipe e um toiro salgado, de morrilho farto, o Andorinho, irão lutar pela chefia da manada; e que um deles morrerá sem piedade, enganchado nas hastes do outro, talvez o Príncipe, porque não há toiro que goste dele, e o círculo que os outros farão à volta dos dois, proporcionando lugar para a luta, não se abrirá para lhe dar a fuga e protegê-lo.
    Aquela ideia excita. E dá de esporas à égua, que dispara numa carreira, levando consigo, em farrapos, o gabão de noite e estrelas que trazia sobre os ombros.
    Quando chega à porta do aposento das mulheres, lá estão os olhos tristes da carmela à sua espera. Pimpão, atira a jaqueta para cima duns alforjes e acena a cabeça para a cachopa.
    O harmónio toca um fandango.
    Ele rompe por entre os grupos, acotovela um dos dançarinos, para que lhe dê o lugar, e, metendo os polegares nas cavas do colete, salta que nem um gamo à frente do outro; bate com os calcanhares, de busto rijo empinado, enquanto as pernas rendilham fantasias e o carapuço verde lhe saltita no dorso. Não tira o olhar doirado da carmela, que já lhe sorri, e sabe agora que a levará na garupa da sua égua pigarça, para noivarem num coxim de espigas e papoilas.
    Tonto de amor e de juventude, a faixa vermelha cai-lhe da anca fina e escorre para o chão, como se fosse uma golfada de sangue (...)”
    (in “Olhos de Água” – 1954)

    António Alves Redol nasceu em Vila Franca de Xira no dia 29 de Dezembro de 1911 e faleceu em Lisboa no dia 29 de Novembro de 1969. Era filho de um comerciante modesto. Trabalhou como operário em Angola durante alguns anos. Quando regressou a Portugal em 1936, juntou-se ao movimento que se opunha ao Estado Novo, tornando-se militante do Partido Comunista. Dedica-se à ficção tornando-se um dos principais romancistas de tendência neo-realista.

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